GetaSecondLife

Uma realidade paramétrica

Um dos aspectos fascinantes do Second Life® é o seu potencial para descrever tecnologias até há pouco tempo desconhecidas do grande público. Aqui, “tecnologias” são todo o tipo de sistemas sociais, económicos, políticos [leiam-se os meus posts abaixo sobre noções de capitalismo e liberalismo]… mas também as que são puramente técnicas.

Ora, um dos aspectos fascinantes da “vida real” é a imensidão de informação em que estamos mergulhados, e que torna a nossa existência extremamente estimulante – como reagimos a estes estímulos é uma conversa diferente. Para lidar com tantos dados, o cérebro humano, o nosso computador de bordo, desenvolveu ao longo da evolução do homo sapiens um conjunto de técnicas cognitivas que permitem seleccionar e sintetizar o que nos chega pelos nossos sentidos.

Uma dessas técnicas é a nossa capacidade de encontrar “linhas de força” nos objectos, e classificá-los qualitativa segundo esses eixos. Não vou aqui falar de metafísica e conceitos livrescos. Mas um bom exemplo abstracto é descrevermos como uma pessoa é. Sabemos dizer por exemplo se é alegre ou triste, simpática ou desagradável, comunicativa ou metida consigo, etc. Se nos pedirem para classificarmos cada uma destas características numa escala de 0 a 100, por absurdo que seja reduzirmos uma pessoa a números, até conseguiríamos.

A montante desta avaliação está a determinação das “categorias”. Sabemos se um sorriso é de fisiologia, bonomia, imbecilidade ou loucura, dependendo do contexto. Isto, sabemos por instinto, experiência objectiva, bom-senso, etc. Mas é um facto que há algo que “puxa” alguma informação para determinadas categorias. Tudo isso está na nossa cabeça. Verifica-se que numa determinada cultura, é a forma tendencialmente mais eficiente de organizar o conhecimento.

Se passarmos para o mundo físico, também é assim. Sabemos se um objecto é mais alongado que achatado, ou se a sua cor é mais “quente” ou mais “fria”, ou se a textura é “confortável” ou “agressiva”, e por muito abstractas que sejam as categorias, não as confundimos… mas o mais relevante é que estas classificações podem ser encontradas de forma a que sejam independentes entre si. Ou seja, mudando a medida de uma propriedade, se as restantes fossem reavaliadas, manteriam o seu valor (ou parâmetro). Uma laranja azul não deixa de ser uma laranja… mas azul.

Há métodos físicos, químicos, matemáticos, de chegar lá, mas alguns nem conseguem ser formulados, ou exigem uma dose muito grande de bom senso do humano que está a fazer o trabalho. É por isso que é notável o trabalho dos programadores do SL reflectido no mecanismo de customização física dos avatares. Reparem: são-nos apresentadas dezenas de categorias, às quais associamos um valor, e com maior ou menor jeito, com maior ou menor fidedignidade, é possível reproduzir, de milhões de combinações, fisionomias e físicos individuais. Acreditem, o verdadeiro trabalho está em montar o sistema de modo que mudando um parâmetro, o efeito nos outros seja desprezável – e que se consigam resultados de que nos orgulhemos.

Dito isto, espero que apreciem e que talvez compreendam melhor este youtube, onde se faz… um processo contrário. 🙂

  • Jose Flamand

    Muito bem apresentado o tema Gath. As paramétricas são um conceito de modelação que se usa há bastante tempo em CAD, tecnologia essa que está obrigatoriamente por trás da forma gráfica do SL, e em outras técnicas de programação, mas o seu transporte para as propriedades não físicas, e assim ser aplicada como igual técnica de modelação, é algo de facto espantoso e com o potencial que está ‘à vista’.

  • Obrigado 🙂

    Eu por acaso também estava a pensar falar nisso – conceitos de computação gráfica como perspectivas, horizontes, rendering, banalizaram-se com o SL…

  • Está visto que tenho muito que aprender…