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Há um ano, estava eu sentada numa bancada de betão a ler os jornais de fim de semana. O Público desse domingo, 5 de Novembro de 2006, trazia um enorme artigo do João Pedro Pereira sobre o Second Life, explicando o que era e com uma entrevista ao Eggy Lippmann.

Fiquei muitíssimo curiosa, cheguei a casa e, assim que consegui, inscrevi-me. Sem grandes hesitações em escolhas de nicks ou do que fosse, era só para ver como era. É sempre assim, clicar para ver como é, basta isso, um perigo, estas tentações nascidas da curiosidade: uns minutos depois estava completamente encantada. E agarrada, claro. O SL tem essa particularidade, de nos agarrar no primeiro momento.

Continuo a chamar-lhe “o” SL. Não é a Second Life, uma segunda vida, para mim. Não me faz sentido haver mais do que uma vida, é esta, tem muita coisa e, entre elas, tem o Second Life. Não é um jogo, embora pareça e muitos dos perigos do SL advêm dessa noção errada, de “ser só um jogo”. É como o “jogo da Bolsa”. Também parece um jogo, aqueles streams com acções sempre a subir e a descer e setinhas de cores diferentes e basta clicar aqui e até é bem engraçado. Simplesmente do lado de lá estão pessoas também a clicar ali e, de repente, nem sabemos como, já perdemos tudo e mais alguma coisa. Estes jogos para adultos, um gajo tem que os levar seriamente. Tudo o que implica gente é preciso levar seriamente, mesmo quando é para divertimento e palhaçada.

Para mim, o SL é um outro país. É o estrangeiro, por assim dizer. Mais perto, mas os países estão todos mais perto com a net. Este é virtual mas e então? Há países tão surrealistas que parecem bem mais virtuais que o SL, portanto não me faz grande confusão. É um outro país e é assim que tenho orientado a minha postura por lá. Eu e muita gente, haja em vista as comunidades que se vão formando ali. Estou convencida que muitos portugueses nunca sairam do seu canto português, como muitos outros nunca sairam dos seus.

Adiante que a parte filosófica já vai longa.

Um ano de SL é muita fruta. Uma pessoa não fica a pairar sobre o mundo durante um ano; chega a um ponto que se torna uma verdadeira seca por muito bonito (ou muito feioso, que também é) que seja. Exploram-se as paisagens e depois começamos a ver as potencialidades da coisa. O SL parece um jogo, parece um país, mas na realidade dos pixeis, é uma plataforma de comunicação em 3D. Giro isto, não é? E sem se dar conta uma pessoa está a usar as ferramentas a brincar, a ver o que acontece quando se clica aqui (como sempre) e a aprender uma série de coisas que não servem para rigorosamente nada, mas que são muito giras. E a ver até onde se consegue chegar.

Eu fiz um chapéu.

O meu chapéu é importante. É uma espécie de símbolo da Cat Magellan no SL. Eu – ela – nunca encontrei exactamente o meu rumo ali. Não que não saiba aquilo que gostava de fazer. Mas por razões diversas, há sempre qualquer coisa que desvia ou adia. Distraio-me com algumas coisas, vou à minha vida e não tenho tempo ou os projectos parecem estar encaminhados e, de repente, voltam para trás. Nada de grave, no entanto: sempre gostei de desafios, principalmente em condições adversas. Acaba por dar mais pica, ali ou em outro lado qualquer: no SL não sou outra pessoa, sou simplesmente eu, não tenho paciência para mais e o meu ego não me deixa.

Escrevi antes que o SL é uma plataforma de comunicação. Um chat de luxo, como eu lhe chamo. Com paisagem à volta e uns bonecos que são pessoas. Claro que é sempre isso que não nos deixa ir embora dali. As pessoas. Eu gosto de pessoas. Não entrei ali para fazer amigos, mas também serve e também acabamos por encontrar algumas pessoas giras. Se amigos se não, o tempo depois encarrega-se disso, que os amigos não se fazem num dia, por muito que nos pareça que os conhecemos bem. Mas levei alguns amigos comigo, que me têm acompanhado sempre, no SL e na RL e que tornaram a minha segunda vida (olha, agora chamo-lhe isso mas é só nesta perspectiva) muitíssimo divertida, simpática, envolvente e com momentos inesquecíveis de gargalhadas, de espanto, de maravilha. No fundo, ao fim de um ano, uma pessoa vê quem esteve sempre e quem continua a estar. Sem qualquer desprimor para todas as pessoas que estiveram ou estão comigo em certos momentos deste ano e que têm sido bestiais, neste meu rezz day (que hei-de comemorar mais tarde) dedico o meu ano de SL aos meus amigos Analu, Tess e Zé Flamand. E ao Miguel, claro: sem ele eu não estaria aqui.