GetaSecondLife

De Malthus ao Sonic

No século XIX, viveu um pensador chamado Thomas Malthus, que popularizou a ideia que um dia, o ser humano ia esgotar os recursos do planeta pelo simples efeito da sobrepopulação – ou sobre-reprodução, como queiram. Este misticismo influenciou Marx e outros iluminados, e ainda hoje persiste no imaginário público – hoje, por exemplo, na revista “Xis” do jornal Público, noticiava-se que a água está para acabar.

Não é preciso evocar princípios de Economia para observar que este medo é irracional. Nunca como hoje houve tanta gente no planeta, e nunca como hoje houve tanta abundância. Há questões morais (serão?) de “desigualdades”, mas o facto é que os miseráveis hoje vivem como viviam os miseráveis de ontem, mas todos os que beneficiam de sociedade livres e do correspondente sistema económico, o capitalismo, estão tendencialmente melhor. A alternativa é sujeitar as populações a um cuidadoso socialismo, o mesmo que tão bons resultados deu no mundo soviético ou chinês comunista, e ainda dá em países como a Coreia do Norte, Zimbabwe, e futuramente um pouco por toda a América Latina neo-revolucionária – o mesmo que é defendido por um senhor da EPAL, também na mesma revista.

Adiante: no futuro, haverá ainda mais gente neste mundo e ainda mais riqueza. E um dia a população terrestre irá estabilizar, porque as pessoas, tal como acontece no “primeiro mundo”, começarão a escolher entre viver a vida ou criar filhos, coisa que dá uma trabalheira quando não são necessários como aforro para a velhice. E a água não está a acabar, porque na Terra existe qualquer coisa como 1,4 mil milhões de quilómetros cúbicos dela. Se alguma dessa água é difícil de obter em condições, só com mais capitalismo isso é possível.

Adiante, adiante, adiante: esta sabedoria sempre existiu na maior parte de outro grupo de pensadores, bem menos populares: escritores de ficção científica. Isaac Azimov, Robert Heinlein, Philip K. Dick, William Gibson e amigos. São recorrentes nas suas obras as megalópolis, cidades que cobrem zonas vastíssimas do planeta (ou de outros). Temas como a sobrepopulação nunca lhes apelaram [nem tão pouco o “aquecimento global”, porque afinal no futuro será banal contrariar o Tempo…] – não existe tal coisa, a não ser em ideologias anticapitalistas. Pelo contrário, preocupavam-se com aqueles acontecimentos que impediriam a manutenção de populações imensas. Poderiam ser, entre outros, aliens pouco sociais, epidemias mortais, guerras nucleares, socialismo à escala mundial, e assim por diante.

Nestes eventos, incluiam a acção de máquinas inteligentes fora do controlo do Homem, e hostis a ele. O tema é demasiado vasto para desenvolver aqui. Digamos apenas que aquelas máquinas que considerassem o ser humano como recurso valioso, tenderiam a geri-lo como se gere um sistema agrícola (e aqui faço a segunda referência do dia ao filme Matrix), e manteriam os humanos sob controlo absoluto para garantir que o stock não acabaria. Outras máquinas poderiam não ver qualquer utilidade nos humanos, que seriam uma peste insuportável (ideia partilhada por muitos ecologistas), pelo que resolveriam exterminá-los (exemplo: Exterminador Implacável).

Será que um dia existirá “vida artificial inteligente” no Second Life®? Será que um dia os scripts poderão ganhar consciência, como seres vivos habitando dentro da Rede? De que forma interagirão connosco? Tratar-nos-ão bem?

Mas essas seriam “máquinas inteligentes” de uma ordem superior. Pensemos mais pequeno. E as ameaças microscópicas, como os vírus, que já existem na net? Sobreviverá uma rede de redes a um ataque de um vírus inteligente? Os tais escritores nerd elaboraram sobre as várias temáticas associadas. É interessante que mesmo aqueles com visões mais negras consideraram que o ser humano sobreviveria, se não lhe retirassem a liberdade e o amor a si próprio – o individualismo.

Às tantas, surgiu um conceito assustador. Um microagente letal seria aquele que usasse a força bruta à escala microscópica, esgotando todos os recursos no seu horizonte. Uma máquina microscópica capaz de se replicar, na presença de quantidades mínimas de matéria, criando “imagens” de si própria, com igual capacidade e voracidade. Este processo, repetido, criaria uma massa de micromáquinas capaz de “comer” ou ocupar toda a realidade- tal como acontecia com o Nada do livro A História Interminável. Um verdadeiro apocalipse malthusiano.

Isto não é possível acontecer no Second Life®, pois não?

  • Há questões morais (serão?) de “desigualdades”, mas o facto é que os miseráveis hoje vivem como viviam os miseráveis de ontem, mas todos os que beneficiam de sociedade livres e do correspondente sistema económico, o capitalismo, estão tendencialmente melhor. A alternativa é sujeitar as populações a um cuidadoso socialismo, o mesmo que tão bons resultados deu no mundo soviético ou chinês comunista, e ainda dá em países como a Coreia do Norte, Zimbabwe, e futuramente um pouco por toda a América Latina neo-revolucionária

    Não sei o que é que Marx e o socialismo tem a ver com anéis auto-replicantes que atacam avatars de pessoas cujas vidas são tão vazias de sentido que já não sabem o que fazer com o dinheiro, mas pronto. O fetichismo pela mercadoria é tanto que essas pessoas são levadas a consumir aquilo que não existe. Toda essa conversa inicial da treta a louvar a “mão invisível” do mercado apenas serve para disfarçar que o capitalismo não resolve todos os problemas, mesmo a corrupção, a ganância, o desemprego.

    A história não se repete, meu caro. Ao contrário do que a Srª Thatcher dizia, existem alternativas, sim e para mim elas não passam nem pelo CAPITALISMO ESTATIZADO do COMUNISMO nem pelo ANARQUISMO CAPITALISTA à la Ayn Rand tão desejado pelos escritores de FC. Elas constroem-se com a participação de todos e não excluindo os que têm menos qualificações ou os que se recusam a ser engolidos pela máquina do Império (artistas, escritores, pintores, filósofos e todos os que representam essas profissões inúteis que não dão dinheiro).

    E quanto à miséria ser hoje em dia menor, não sei se os africanos que morrem todos os dias concordariam consigo. E já agora, se o mundo é mais justo hoje em dia, porque é que os ricos vivem constantemente com pavor da invasão iminente dos pobres e se fecham em condomínios fechados, longe das cidades? Será que o apogeu do capitalismo será atingido quando todo o mundo for como a China onde uma pequena minoria explora à exaustão mão de obra descartável? Será que isso é o destino último da humanidade, a lei do mais forte?

    Recomendo-te a leitura de Deleuze e Guattari, Negri e Hardt ou McKenzie Wark se queres realmente falar a sério sobre marxismo nos dias de hoje. Porque de outro modo, estás a entrar numa caricatura saloia. O modelo comunista da URSS e da China, seguido à risca pelos lacaios africanos foi apenas uma forma estatizadas de capitalismo que não colocaram em causa o valor sacro-santo: o conceito de propriedade e a noção de mercadoria. O comunismo é resultado do próprio capitalismo e não o seu oposto.

  • Caro Miguel,

    – o post é uma série de associações livres. Não vale a pena alegar que estou a associar Marx e anéis, isso é um straw man;

    pessoas cujas vidas são tão vazias de sentido que já não sabem o que fazer com o dinheiro — mas livres de o fazer. Isso chateia assim tanto?

    todos os problemas, mesmo a corrupção, a ganância, o desemprego – a corrupção existe quando existe abuso de poderes públicos, e é tanto maior quanto maior a estatização do país; a ganância não é problema numa sociedade livre, a não ser para quem gosta de expropriar por via legal; o desemprego existirá sempre, nem que seja residual, mas mantém-se residual enquanto as pessoas forem livres de cooperar – claro que dá para escravizar toda a população, mas não são esses os meus valores;

    profissões inúteis que não dão dinheiro – Recordo que o conceito de “profissão inútil” (ou improdutiva) sempre foi cavalo-de-batalha de qualquer colectivismo – o “esforço comum” não pode aceitar subprodutivos. Num sistema capitalista, numa sociedade livre, cada um é livre de empregar-se como quiser;

    se os africanos que morrem todos os dias concordariam consigo – eu não disse que a miséria é menor (como é que se quantifica?), mas que a riqueza é maior, e que os miseráveis hoje não estão melhor do que os miseráveis de outrora; os africanos concordariam; e hoje em dia pedem mais abertura dos mercados globais (“exploração”) do que ajuda estatista;

    se o mundo é mais justo hoje em dia – também não disse isso, começando porque o conceito de “justiça social” é um conceito intelectualmente desonesto (por definição, não tem definição). Porque eu sou mais rico que um miserável algures, não estou a cometer nenhuma injustiça, logo não têm nada que me tirar dinheiro para lhe dar. E o mesmo quanto ao Bill Gates relativamente a mim; o que não quer dizer que eu não ajude o próximo, voluntariamente;

    vivem constantemente com pavor da invasão iminente dos pobres e se fecham em condomínios fechados, longe das cidades? – porque são livres de gastar o seu dinheiro, e porque o tempo dos Sovkhozes há muito se foi… isso de obrigar a sociedade a ser um colectivo uniforme é sinistro;

    a China onde uma pequena minoria explora à exaustão mão de obra descartável – eu não concordo com o sistema político chinês. mas o melhor é perguntar aos chineses se eles preferem maior ou menor globalização. Se os campos de arroz são melhores. Mas isso já sabemos, não é? Com certeza que prefeririam mais investimento estrangeiro (“exploração”). Tal como cá em Portugal, não suspiramos por outra coisa mais (a não ser os movimentos de extrema-esquerda e extrema-direita);

    a lei do mais forte – isso acontece quando há _um_ mais forte (Mao, Estaline, Hitler, Kim Il Sung, Mugabe, Chavez, etc) com poder sobre a vida de toda a gente, e não quando o poder político e económico se encontra disseminado… de resto, associar o sistema capitalista a qualquer darwinismo, revela desconhecimento do que são os mecanismos da concorrência (e não “competição”), no qual ambas as partes beneficiam com qualquer troca voluntária – ou ela não se realizaria. Quando há socialismo, as trocas são impostas – pelo mais forte, regra geral o poder político;

    O comunismo é resultado do próprio capitalismo e não o seu oposto. Falou um verdadeiro marxista! O determinismo histórico não me interessa porque é refutado pela realidade: cada vez mais os países adoptam a liberdade como modelo cívico. Caiu um muro, e continuam a tombar. O capitalismo é bom porque se baseia na propriedade privada e na liberdade de transacção. As pessoas são livres de perseguirem a sua felicidade pelos seus meios. E isso gera riqueza. O oposto deste sistema é de facto o socialismo económico, seja na variante alemã, seja na variante soviética. Onde foi aplicado, só se vêem pessoas alegres nos posters de propaganda. A meio caminho há o welfarestatismo, um sistema muito confortável, muito europeu, que garantirá que daqui a 40 anos os chineses e indianos e africanos estejam a queixar-se dos “dumping social” europeu – salários baixos, nível de vida baixo, aceitarem trabalhar por tuta e meia…

  • O capitalismo é bom porque se baseia na propriedade privada e na liberdade de transacção. As pessoas são livres de perseguirem a sua felicidade pelos seus meios. E isso gera riqueza. O oposto deste sistema é de facto o socialismo económico, seja na variante alemã, seja na variante soviética. Onde foi aplicado, só se vêem pessoas alegres nos posters de propaganda. A meio caminho há o welfarestatismo, um sistema muito confortável, muito europeu, que garantirá que daqui a 40 anos os chineses e indianos e africanos estejam a queixar-se dos “dumping social” europeu – salários baixos, nível de vida baixo, aceitarem trabalhar por tuta e meia…

    A mesma cegueira que afecta actualmente os defensores do mercado “livre” – será mesmo livre ou apenas de alguns oligopólios? – é aquela que afectou os nobres do antigo regime antes da Revolução Francesa. Este evento da história apenas se concretizou porque a população deu-se conta de que havia outras possibilidades para além daquilo que lhes era oferecido. Nesse sentido, eles negaram o presente: não se deixaram subjugar pela história, trilharam a sua própria história.

    De facto, se fôssemos a pensar que apenas a realidade interessa quando o que está em causa é o desenvolvimento da humanidade ainda hoje estaríamos a viver na Idade Média, dominados pela omnipotência e omnipresença da Igreja. A seu tempo, os ícones do capital e do trabalho também serão derrubados.

    Aliás, não será a segunda vida do “Second Life” já um presságio do que está para vir? Se o capitalismo é perfeito, porque é que as pessoas passam tanto tempo a conviver num espaço virtual tendo por principal motivação não o dinheiro mas o simples prazer de se reinventarem a si próprias? Não quer isso dizer que há afinal de contas algo mais importante para elas do que o capital? E porque é que as pessoas colaboram em projectos de produção entre pares e sem fins comerciais como o Linux e a Wikipedia? Qual a importância que a propriedade privada terá numa economia em que a informação, esse bem infinitamente reproduzível, substitui o capital?

    P.S: Essa crítica ao “welfarestatismo” europeu é muito de vistas curtas. Toda a gente sabe que a Finlândia, a Noruega, a Suécia e a Dinamarca são os países mais desenvolvidos do mundo. Talvez não seja por isso de admirar que tenha sido nesse primeiro país onde surgiu o sistema operativo Linux, inicialmente financiado – recordo eu – por dinheiros públicos.

  • Caro Miguel,

    este evento da história apenas se concretizou porque a população deu-se conta de que havia outras possibilidades para além daquilo que lhes era oferecido

    …que lhes era oferecido pelo Estado, então aristocrático. Não é preciso apelar a revoluções sangrentas: as pessoas estão fartas de políticos e burocratas que interferem em todos os aspectos da sua vida..-

    o que está em causa é o desenvolvimento da humanidade

    A Humanidade desenvolve-se a si mesma, não precisa de quem a oriente num qualquer glorioso caminho. Esse fatal conceit é uma perigosa quimera. Não há como compatibilizar liberdades cívicas básicas com sistemas político-administrativos que pretendem forçar a sociedade a ser uma qualquer utopia.

    a seu tempo, os ícones do capital e do trabalho também serão derrubados

    Sei lá o que são “os ícones”. O que me interessa é eu poder trabalhar e ganhar o meu capital para tentar orientar a minha vida. Interessa-me que os outros tenham essa possibilidade para que sejam maximizadas as oportunidades de eu interagir com a sociedade. Isso é uma sociedade livre. Eliminar conceitos como trabalho e capital (aconteceu em todo o mundo vermelho, e teria acontecido na Alemanha hitleriana, e mesmo na América da II Guerra, e acontece hoje noutros bastiões estatistas) é escravizar uma sociedade e conduzi-la à miséria.

    Se o capitalismo é perfeito

    O capitalismo não é perfeito. É o melhor sistema que existe de coordenação da acção de milhões de pessoas. Quando milhões de pessoas tentam melhorar a sua vida, e podem escolher das suas opções as que consideram melhor, gera-se riqueza e prosperidade. Os opostos do capitalismo necessitam que uma elite, muito afastada da realidade, decida o que é melhor para milhões de pessoas. É tão absurdo que é intelectualmente desonesto e violento.

    porque é que as pessoas passam tanto tempo a conviver num espaço virtual tendo por principal motivação não o dinheiro mas o simples prazer de se reinventarem a si próprias?

    Está respondido: por prazer! O prazer também se “compra”!. Todos os utilizadores poderiam estar a trabalhar, para si, ou para o “colectivo”. Mas escolhem não o fazer, porque já trabalharam para poderem ter esse “luxo”. O Second Life proporciona-lhe outras experiências, para além da modorra do dia-a-dia. Neste aspecto, não se distingue de ver telenovelas, de ir para o café, de ir ver um espectáculo cultural, de ler um livro.

    Não quer isso dizer que há afinal de contas algo mais importante para elas do que o capital?

    Ninguém vive para produzir. As pessoas vivem para consumir. Toda a nossa vida é feita de consumo, começando por O2 e H2O e nutrientes, e acabando em bens e serviços bem mais intangíveis. Só produzimos porque precisamos. E só queremos produzir sempre mais porque nunca estamos satisfeitos (algum dia seremos “suficientemente” saudáveis, suficientemente cultos, teremos suficientemente tempo para gozar todas as experiências que desejamos??). O capital é um meio, não um fim. Apenas representa o que fizemos para o adquirir, e o que podemos adquirir com ele. É por isso que “capitalismo” é uma má palavra para descrever o sistema económico que deriva de uma sociedade livre. Devia ser “vitalismo” ou coisa qualquer, agora falta-me imaginação. Só não é porque o inventor (ou popularizador) da palavra foi Marx, que baseou toda a sua filosofia em atacar um sistema onde de facto o objectivo não é acumular capital. (como se as pessoas fossem tios patinhas à sua escala!)

    E porque é que as pessoas colaboram em projectos de produção entre pares e sem fins comerciais como o Linux e a Wikipedia?

    Por prazer intelectual. Por liberdade. A pergunta que deve ser feita é se num sistema não capitalista isso aconteceria – não só para esses excelentes exemplos, como para todas as interacções sociais. Hoje somos todos consumidores e produtores de conteúdos como nunca tinha acontecido. Outrora, e porque a liberdade de criação artística está interligada com a liberdade de consciência e com a liberdade política, só uma inteligentsia tinha esse privilégio – o resto do povo, trabalhasse que intelectuais eram os que eram reconhecidos pelo poder.

    Qual a importância que a propriedade privada terá numa economia em que a informação, esse bem infinitamente reproduzível, substitui o capital?

    O problema dessa pergunta é que informação é capital. Capital não é só dinheiro ou propriedade fungível. Mas informação não nos alimenta, não nos veste, não nos mete um tecto em cima da cabeça. Esse capital sempre existirá. O dinheiro é só uma forma cómoda de podermos trocar pães por sapatos por tijolos. Enfim, aqui não é o lugar para desenvolver a teoria do capital. E, pessoalmente, eu sou contra a “propriedade intelectual” de informação, mas essa é também outra questão.

    Toda a gente sabe que a Finlândia, a Noruega, a Suécia e a Dinamarca são os países mais desenvolvidos do mundo.

    São muito desenvolvidos (não sei se são “os mais” – com que medida?) porque têm as economias mais abertas da Europa, e despite o seu Estado Social forte- que têm sucessivamente moderado, face a sérios problemas de competitividade internacional.

    Talvez não seja por isso de admirar que tenha sido nesse primeiro país onde surgiu o sistema operativo Linux, inicialmente financiado – recordo eu – por dinheiros públicos.

    A internet também surgiu de dinheiros públicos. Mas por cada “invenção” saída de uma faculdade estatal, arranja-se cem saídas de garagens de geeks ou centros de I&D privados. O Linux é de facto um marco da nossa civilização, e é impressionante a forma como tem evoluído. Mas só o fez porque as pessoas eram livres de o utilizarem e modificarem, a seu risco, sem qualquer estorvo de fronteiras, ou regulações estatais. E só agora está a chegar às administrações públicas (e não ao contrário). E está a fazer estremecer as fundações dos gigantes do sector – muito bem. Estes terão de se esforçar por fazer melhores produtos, que as pessoas queiram comprar com o seu dinheiro. Isso só acontecerá ser não forem protegidos, por via legal, da concorrência – outra prerrogativa do estatismo.

  • Zesim

    Já olharam bem para o que escreveram? É só comparações … o que demonstra uma certa necessidade quantitativa de aprovação e de afirmação . O que é que isso interessa? Não sei e nem quero saber.
    Tudo o que esplanaram por aí mostra que não há uma verdadeira liberdade no mundo e que continua a existir exploração dos mais “fracos”.
    Em vez de teorizarem façam algo pelo próximo….. mas sem o obrigarem.

    P.S. Escrevem todos muito bem

  • Em vez de teorizarem façam algo pelo próximo….. mas sem o obrigarem.

    My point exactly 🙂

  • Zesim

    eu percebi 😉

  • Existe uma contradição esquizofrénica nas palavras de todos os defensores do mercado que eles nunca irão conseguir ver, porque vivem debaixo de um sonho cor-de-rosa que ignora todos os detalhes que deturpam essa visão. O capitalismo, por essência, baseia-se na concorrência, na luta desenfreada até à morte e exploração completa do adversário. Nesse sentido, funciona como um vírus letal que não permite oposição. Em nome do capital e da produtividade, essa lógica da sociedade livre legitima o tráfego de órgãos humanos, a exploração de crianças, a dizimação do ambiente, o extermínio de espécies animais inteiras e a sujeição de tribos que durante séculos viveram alegremente à margem do ocidente, baseando-se em economias da dádiva de troca directa (sim, o capitalismo não exisitiu desde sempre…).

    Os que não concordam com os valores do sacro-santo capital, do trabalho e do consumismo que lhe estão associados são ameçados de guerra, boicotados, despedidos, humilhados, vendidos como objectos. Se os já escassos mecanismos de intervenção estatal fossem removidos, o que aconteceria seria uma autêntica lei do mais forte onde quem seria verdadeiramente livre seriam os que tivessem recursos suficientes para disfrutar dessa falsa liberdade. O acesso à educação, saúde, segurança ou mesmo água e electricidade seria vedado a todos os que se recusassem a vender como mercadorias. Assim, os privilegiados assegurariam a sua descendência. Não seria uma elite política como as ditaduras estatizadas mas seria uma elite do capital – uma verdadeira oligarquia pertencendo apenas aos funcionários da Microsoft, Time Warner, Apple, Nokia, Sony, Toyota e umas quantas mais. Todas as outras teriam sido assimiladas, devoradas pelo Borg do capital. Os restantes seriam uns danados, vivendo em favelas gigantescas onde pequenos bandos de gangues dominariam. Olhando bem, isso parece-me ser já hoje em dia um pouco o que se passa no Brasil…

    O que acontece é que o capitalismo chegou a um impasse, pois para que o valor gerado continue com o mesmo ritmo de crescimento precisa de criar novas mercadorias que levem as pessoas a consumir. Ora, numa economia em que a informação é cada vez mais importante para gerar mercadorias com margens de lucro mais elevadas, valores estranhos ao ethos individualista do capital começam a ser cada vez mais indispensáveis. Estou a falar de colaboração, cooperação e todas as formas de colectivismo descentralizado que permitem obter essa mais-valia que sustenta o capital. O problema é que a informação e o conhecimento apenas florescem num ambiente que incentive a partilha, o hedonismo, o gozo e a troca. Ora esses valores vão contra a própria lógica do mercado, baseada no trabalho, trabalho esse que serve para o o consumo de produtos que apenas podem ser adquiridos com dinheiro.

    Mas o que se passa é que hackers do Linux contribuem com código não pelo dinheiro mas apenas pelo prazer que isso dá. Os participantes na Wikipedia, idem. E os utilizadores acedem a esses bens comuns sem terem que pagar nada. Esta produção entre pares ocorre totalmente fora da esfera do mercado. De repente, milhões de pessoas em todo o mundo apercebem-se de que conseguem escapar se não completamente, pelo menos parcialmente, ao círculo viciante trabalho-consumo que o capital lhes oferece como perspectiva de vida.

    Posto isto, apenas vejo duas saídas: ou o capitalismo acabará por se devorar a si próprio ou será o mundo que acabará engolido pelo vírus…

  • Zesim

    Miguel,

    Tudo o que escreveu está muito bem argumentado até ao penúltimo parágrafo.

    1º – Quem contribui para o desenvolvimento do Linux não é necessáriamente Hacker
    2º – A wikipedia é a maior fonte de não-conhecimento, conhecimento parcial, de conhecimento não fundamentado, etc. que existe. Apesar de ser um esforço de colaboração bastante interessante.

    Não concordo com o que disse sobre a educação vir a pertencer apenas aos descendentes dos capitalistas. Se isso acontecesse voltariamos à idade média. Se verificar melhor descobre que muitas empresas dão bolsas de estudo a alunos de grande potencial, independentemente da classe a que pertencem.
    Se quiser, tambem, contabilize o numero de alunos obrigados a ir à escola que destabilizam o ambiente daqueles que vão sem serem obrigados e que querem aprender.
    Se quiser veja o que acontece no parlamento sempre que alguem quer controlar os controladores estatais.
    E aproveite e veja o que acontecia a quem não aceitava ser parte das chamadas sociedades comunitárias.

  • 1º – Quem contribui para o desenvolvimento do Linux não é necessáriamente Hacker

    Aqui eu atribuo ao termo a acepção que abrange todos aqueles que código de computador. Hacker não é cracker, muito pelo contrário. Há mesmo aqueles como McKenzie Wark que abrangem nesse termo todos os indivíduos que produzem e processem informação – programadores, cientistas, escritores, designers e artistas em geral. Em oposição a essa classe de hackers estaria a classe vectorial em que se inseriam todos os que controlam essa informação e tentam monopolizá-la para benefício próprio.

    2º – A wikipedia é a maior fonte de não-conhecimento, conhecimento parcial, de conhecimento não fundamentado, etc. que existe. Apesar de ser um esforço de colaboração bastante interessante.

    Tem toda a razão. Por isso pode ser entendida como um esboço de um modelo de conhecimento partilhado mais avançado que poderá surgir no futuro. Tal como o software livre, é um constante “work-in-progress” em que o que é fundamental não é o resultado em si mas sim o processo, porque é aberto e todos podem melhorar, não podendo ser fechado em compartimentos estanques por alguma empresa.

    Não concordo com o que disse sobre a educação vir a pertencer apenas aos descendentes dos capitalistas. Se isso acontecesse voltariamos à idade média. Se verificar melhor descobre que muitas empresas dão bolsas de estudo a alunos de grande potencial, independentemente da classe a que pertencem.

    Claro, mas apenas se esse aluno quiser seguir um curso de gestão, marketing, engenharia ou outra área do conhecimento técnico-instrumental que sirva para consolidar o domínio do mercado por essa empresa ou contribua para gerar mais-valias indirectas posteriores. Para quê investir em filosofia ou nas artes e humanidades se isso não gera produtos que podem ser consumidos?

    Se quiser, tambem, contabilize o numero de alunos obrigados a ir à escola que destabilizam o ambiente daqueles que vão sem serem obrigados e que querem aprender.

    Se calhar na verdade eles não estão interessados em aprender apenas aquilo que professores lhes tentam impingir sem esconderem que estão a fazer um grande frete. Agora, de certeza que se lhes ensinassem música, pintura ou mesmo outro tipo de actividades lúdicas que envolvesse a sua participação activa e não uma atitude passiva e submissa, a reacção seria diferente.

    Se quiser veja o que acontece no parlamento sempre que alguem quer controlar os controladores estatais.

    Mas os controladores estatais já não são controlados pelas empresas que os financiam e subsidiam e a quem eles – sejam autarcas, sejam deputados ou ministros – se vergam constantemente? Mais controlo do que esse é impossível 😉

    E aproveite e veja o que acontecia a quem não aceitava ser parte das chamadas sociedades comunitárias.

    Não vejo qual o problema das sociedades primitivas em que cada um tomava para si aquilo que queria, trabalhava quando queria e tinha tudo aquilo de que sentia falta. Mas pode ser que me esteja a esqueçer de algum pormenor…

  • Caro Miguel,

    Acho tragicamente interessante que no dia em que se comemora a vida de Milton Friedman tantas falácias continuam a ser propagadas. O mais triste nem é isso, é que as pessoas acreditam que têm um fundo de verdade.

    O capitalismo, por essência, baseia-se na concorrência, na luta desenfreada até à morte e exploração completa do adversário.

    De novo, isto é uma mis-representação do capitalismo. O capitalismo baseia-se na concorrência, sim, mas não consta que nenhum adversário tenha sido literal ou figurativamente exterminado. Isso nunca aconteceu. É verdade que há “sempre” quem produza melhor – ou que numa sociedade livre, as condições devem estar abertas para que tal aconteça – mas isso nunca levou ao triunfo de um monopolista.

    Nem um caso existe, ou pelo menos nenhum caso que não tenha sido ajudado pelo Estado. Antes pelo contrário, a maior parte dos monopólios são estatais – incluindo sectores económicos como a educação, saúde, seguros de desemprego, aforro, etc, que tanto afectam a vida de cada um de nós. Com os efeitos conhecidos. Se há quem não tenha o suficiente, pois bem, isso pode ser “corrigido” por mecanismos moderados de redistribuição de riqueza. Mas a Economia deve ser livre.

    Por outro lado, explicou Ricardo, num sistema capitalista há lugar para toda a gente. Nem todos podem ser número um, mas todos temos utilidade enquanto pudermos trabalhar livremente. Olhemos para as nossas próprias actividades. Nenhum de nós é o melhor no que faz, mas cada um encontrou um seu lugar. Os melhores não nos aniquilaram.

    De facto, o único sistema que o capitalismo aniquilou, sem grande esforço diga-se, foi o comunismo soviético. E por todo o lado, a concorrência capitalista está a matar os socialistas que emergem – sem dúvida por causa dos bichos papões marxistas…

    sujeição de tribos que durante séculos viveram alegremente à margem do ocidente, baseando-se em economias da dádiva de troca directa (sim, o capitalismo não exisitiu desde sempre…).

    Eu percebo que há quem entenda que essas tribos devem ser para sempre primitivas, para que possam para sempre viver alegremente. Dá bom turismo, manter gente em reservas tipo ecoresort. Eu não tenho opinião, pouco me interesso por elas. Mas se é possível que essa gente possa ter acesso a cuidados de saúde, saneamento, electricidade, … iPods, não sei até que ponto é moral divertirmo-nos a privar outras pessoas desses bens…

    Quanto à troca directa, cá está – isso é capitalismo. Uma forma primitiva do mesmo, mas capitalismo à mesma. Pressupõe propriedade privada. O nosso sistema é a mesma coisa, só que em vez de produtos, usamos papel impresso, quando antes usávamos rodelas de metal.

    O que não é capitalismo é o regime tribal de partilha. É nesse pensamento tribal em que se baseia o socialismo. É um sistema económico que é óptimo (sem sarcasmos) para núcleos pequenos de pessoas, mas incapaz de suster qualquer desenvolvimento. Isto foi observado em todo o lado onde o socialismo foi aplicado, em maior ou menor escala.

    Isto porque é um regime onde todos são iguais. E que é quebrado quando uma pessoa descobre uma forma de poupar trabalho. O fogo, a roda, o tractor, o computador. E há gente desempregada, etc. Mas o facto é que passado o tempo de ajuste (“destruição criativa” chamou-lhe Schumpeter), toda a sociedade fica melhor

    Os que não concordam com os valores do sacro-santo capital, do trabalho e do consumismo

    Não trabalham, nem consomem. Não estou a ver qual é o problema. Se sistemas socialistas são tão bons, adoptem-nos voluntariamente. Juntem-se em comunas reais ou virtuais. Se são bons, todo o mundo capitalista vos seguirá. Só que o socialismo não funciona. Requer que as pessoas sejam obrigadas a partilhar os mesmos valores (“solidariedade social”). Uma doutrina muito moral e ética.

    Se os já escassos mecanismos de intervenção estatal fossem removidos, o que aconteceria seria uma autêntica lei do mais forte

    De novo, lixo marxista, já há muito refutado pela realidade. Não há caso nenhum onde isso aconteça, a não ser por imposição estatal. Numa sociedade livre não há “o mais forte”. É rei posto, rei morto. “Mais forte” que não possa obrigar as pessoas a trabalhar ou a consumir, pode ser substituído nas preferências das pessoas a qualquer altura. Claro, a solução é abrir ainda mais o mercado, para que isso possa mais facilmente acontecer. Pelo contrário, só numa sociedade livre podem os “fracos” concorrer com os mais fortes

    O acesso à educação, saúde, segurança ou mesmo água e electricidade seria vedado a todos os que se recusassem a vender como mercadorias.

    Um exemplo: alimentação. É essencial à vida humana, e social. O Estado não dá alimentação, mas há para todos os bolsos. Onde o Estado dá alimentação, o que acontece? 🙂

    assegurariam a sua descendência. Não seria uma elite política como as ditaduras estatizadas mas seria uma elite do capital – uma verdadeira oligarquia […] sido assimiladas, devoradas pelo Borg do capital. Os restantes seriam uns danados, vivendo em favelas gigantescas onde pequenos bandos de gangues dominariam.

    E depois sou eu o tarado da Sci-Fi… Há que distinguir o capitalismo do corporate-welfarismo, um dos males do estatismo. Se estamos a falar deste último sistema, neo-corporativista, concordo.

    O que acontece é que o capitalismo chegou a um impasse, pois para que o valor gerado continue com o mesmo ritmo de crescimento precisa de criar novas mercadorias que levem as pessoas a consumir.

    Por essa definição, o capitalismo está num impasse há séculos! As novas mercadorias são computadores, viagens, DVDs, cuidados médicos, carros mais seguros, telemóveis, etc. Verdadeiramente insuportável.

    valores estranhos ao ethos individualista do capital começam a ser cada vez mais indispensáveis.

    Como necessitar de trabalhar com seriedade para ganhar o seu dinheiro? Isso faz parte de um mundo onde os recursos são escassos…

    Estou a falar de colaboração, cooperação e todas as formas de colectivismo descentralizado que permitem obter essa mais-valia que sustenta o capital.

    Não existe tal coisa como “colectivismo descentralizado”. O colectivismo é por natureza centralizado. De resto, colaboração e cooperação são processos de interacção humana. Não são próprios de um qualquer sistema económico.

    O problema é que a informação e o conhecimento apenas florescem num ambiente que incentive a partilha, o hedonismo, o gozo e a troca. Ora esses valores vão contra a própria lógica do mercado, baseada no trabalho, trabalho esse que serve para o o consumo de produtos que apenas podem ser adquiridos com dinheiro.

    Isso, caro Miguel, porque qualquer coisa custa a produzir. E custa a alguém, que tem de ser pago para tal. Ou, se decidir disponibilizá-la gratuitamente, tem de ter meios de sustento, que também custam a produzir. There is no such thing as a free lunch, sorry.

    Mas o que se passa é que hackers do Linux contribuem com código não pelo dinheiro mas apenas pelo prazer que isso dá. Os participantes na Wikipedia, idem. E os utilizadores acedem a esses bens comuns sem terem que pagar nada. Esta produção entre pares ocorre totalmente fora da esfera do mercado. De repente, milhões de pessoas em todo o mundo apercebem-se de que conseguem escapar se não completamente, pelo menos parcialmente, ao círculo viciante trabalho-consumo que o capital lhes oferece como perspectiva de vida.

    Nada mais escrevi eu! É um triunfo do capitalismo que haja suficiente prosperidade para que as pessoas possam utilizar o seu tempo nesses meritórios projectos que são tão úteis para todos nós, e tão satisfatórios para quem neles participa!

    Posto isto, apenas vejo duas saídas: ou o capitalismo acabará por se devorar a si próprio ou será o mundo que acabará engolido pelo vírus…

    Isto é tão non sequitur que não tem comentário. Parte sempre do conceito que capitalism=dinheiro e dinheiro=mau. Capitalismo também é prazer e realização pessoal, fora da esfera do emprego, porque todos nós vivemos para consumir o que precisamos e o que nos dá prazer. Como se vê pelo anterior parágrafo, as falhas do mercado são entendidas como necessidade por gente empreendora, que logo as suprime. O capitalismo corrige-se a si próprio!

  • E aproveite e veja o que acontecia a quem não aceitava ser parte das chamadas sociedades comunitárias.

    Bingo. A sociedade regressaria lentamente às cavernas, e os dissidentes às prisões do regime.

  • Zesim

    “Não vejo qual o problema das sociedades primitivas em que cada um tomava para si aquilo que queria, trabalhava quando queria e tinha tudo aquilo de que sentia falta. Mas pode ser que me esteja a esqueçer de algum pormenor…”

    Eu vejo, os mais fracos só ficavam com aquilo que os mais fortes não queriam, eram obrigados a trabalhar para sustentar os mais fortes, não tinham direito a opinião contrária à dos chefes e só não sentiam falta de mais nada porque não conheciam mais (como está muito bem explicado na alegoria da caverna). Pelos vistos esqueceu-se de alguns pormenores

  • Para quê investir em filosofia ou nas artes e humanidades se isso não gera produtos que podem ser consumidos?

    Curiosamente, os maiores patrocinadores de artes e humanidades nos EUA são privados. Mas não é isso que conta. Se há uma necessidade, o mercado tende a cobri-la.

    Agora, de certeza que se lhes ensinassem música, pintura ou mesmo outro tipo de actividades lúdicas que envolvesse a sua participação activa e não uma atitude passiva e submissa, a reacção seria diferente.

    …mas como o Ensino estatal é unico, e regido por um sistema estalinista, não há escolas que possam empreender essas experiências educativas, provando assim o seu valor. Estado, Estado, Estado, sistema único, sistema único, sistema único.

    Mas os controladores estatais já não são controlados pelas empresas que os financiam e subsidiam e a quem eles – sejam autarcas, sejam deputados ou ministros – se vergam constantemente? Mais controlo do que esse é impossível 😉

    Hear, hear! Chama-se a rent-seeking, e é uma característica do poder político, seja de que cor for. Os políticos existem para se venderem, seja por votos ou por outros benefícios. O seu interesse está primeiro. Solução: menos poder político, entregar as empresas à ditadura dos consumidores.

    Não vejo qual o problema das sociedades primitivas em que cada um tomava para si aquilo que queria, trabalhava quando queria e tinha tudo aquilo de que sentia falta. Mas pode ser que me esteja a esqueçer de algum pormenor…

    O pormenor é que não vivemos numa sociedade primitiva, e os recursos são escassos. Quem quiser ir para o mato que vá. Mas em sociedade não é possível ter tudo o que queremos sem violar o direito dos outros conservarem o produto do seu trabalho – tomar aquilo que queremos pode ser considerado “roubo”. Podemos trabalhar o que queremos, e conservar o que nos derem em troca. Acabar com estas instituições é voltar para a idílica sociedade primitiva…

  • Eu vejo, os mais fracos só ficavam com aquilo que os mais fortes não queriam, eram obrigados a trabalhar para sustentar os mais fortes, não tinham direito a opinião contrária à dos chefes e só não sentiam falta de mais nada porque não conheciam mais (como está muito bem explicado na alegoria da caverna). Pelos vistos esqueceu-se de alguns pormenores

    As sociedades primitivas baseavam-se no poder do chefe tribal. E porque o sistema era de partilha, a pouca riqueza excedentária que era criada, era redistribuída. Logo, não havia incentivos para a produzir.

    Estas sociedades foram desfeitas com o advento do comércio. A riqueza excedentária podia ser trocada por outros bens mais úteis – e ambas as partes ganhavam com isso! (ou a troca não seria realizada) Curiosamente, os primeiros comerciantes eram marginais, porque conservavam a sua propriedade, apesar de providenciarem um serviço que as tribos não conseguiam substituir…

  • Zesim

    era de partilha só até certo ponto. Os fracos, feridos, deficientes e velhos se não contibuissem eram abandonados, pois tornavam-se um peso para a tribo que não se podia dar ao luxo de sustentar membros não-produtivos. Nessa altura não tinham nada em abundância como o Miguel está a querer dizer.
    Isto não era mais do que o principio do “capitalismo”, ou produzia ou era posto de parte e tudo sem segurança social nem cuidados médicos nem educação gratuita.

  • Jose Flamand

    Xiça … Posso imprimir e encadernar com argolas ?

  • Não existe tal coisa como “colectivismo descentralizado”. O colectivismo é por natureza centralizado. De resto, colaboração e cooperação são processos de interacção humana. Não são próprios de um qualquer sistema económico.

    Pois, então o Linux, a Wikipedia, os projectos de software livre, as rádios livre, as cooperativas, as associações de economia solidária, a rede Indymedia, o movimento dos sem terra, as redes de partilha de ficheiros são ficções.

    É impossível conversar serenamente com quem se agarra de tal forma a uma cartilha uniforme em que a todas as dúvidas e obstáculos levantados responde que nem um robot: “isso são ineficiências temporárias; o mercado acabará por resolver tudo”.

    Se o capitalismo se corrige a si próprio, então já teria tido cinco séculos para diminuir as desigualdades e não contribuir para acentuá-las ainda mais. Isso é tão óbvio que insistir na mesma tecla é estar a perder o meu latim…

  • era de partilha só até certo ponto. Os fracos, feridos, deficientes e velhos se não contibuissem eram abandonados, pois tornavam-se um peso para a tribo que não se podia dar ao luxo de sustentar membros não-produtivos. Nessa altura não tinham nada em abundância como o Miguel está a querer dizer.

    Isto não era mais do que o principio do “capitalismo”, ou produzia ou era posto de parte e tudo sem segurança social nem cuidados médicos nem educação gratuita.

    Antes pelo contrário: a segurança social era comunitária, os cuidados médicos eram comunitários, a educação era comunitária 🙂 Eram o que eram. Os inválidos ou improdutivos eram rejeitados porque não podiam contribuir para o “bem comum”.

    Foi quando começou a haver riqueza excendentária que as pessoas começaram a poder investir em saúde, educação, melhor nutrição, etc, e nas crianças, deficientes, idosos, etc.

    Nota que os serviços sociais estatais que referes são produto do século XIX…

  • Pois, então o Linux, a Wikipedia, os projectos de software livre, as rádios livre, as cooperativas, as associações de economia solidária, a rede Indymedia, o movimento dos sem terra, as redes de partilha de ficheiros são ficções.

    Não são ficções, só não são _colectivistas_.

    Partem da colaboração voluntária e espontânea de milhares de indivíduos – um conceito liberal. O colectivismo exige uma direcção hierárquica da sociedade, exactamente o que acontece nesses (e não estou mesmo a ser sarcástico!) excelentes exemplos.

    Miguel, de novo sem sarcasmos, as novas tecnologias que tanto aprecias, e a quem fazes tributo diariamente no teu excelente blogue, são por natureza neoliberais; e os seus maiores adversários são o estatismo hiper-regulador ao serviço das grandes corporações – mas isso não é, de todo, capitalismo liberal…

    É impossível conversar serenamente com quem se agarra de tal forma a uma cartilha uniforme em que a todas as dúvidas e obstáculos levantados responde que nem um robot: “isso são ineficiências temporárias; o mercado acabará por resolver tudo”.

    O facto é que nenhum problema da Humanidade será integralmente resolvido: há sempre um equilíbrio para além do qual os recursos utilizados poderiam ser mais eficientemente utilizados noutros lados. Chama-se a isto “cálculo económico”. Como o capitalismo não tende para nenhum ideal de laboratório, há sempre descontentes com o capitalismo.

    Se o capitalismo se corrige a si próprio, então já teria tido cinco séculos para diminuir as desigualdades e não contribuir para acentuá-las ainda mais.

    Porque reduzir as desigualdades não é um valor de mercado.

    É uma utopia, como sermos um dia todos igualemente bonitos ou todos igualmente inteligentes.

    O ser humano é um animal competitivo, todos queremos estar melhor, mas nem todos temos as mesmas capacidades ou possibilidades. E é por isso que há desigualdades. Só é possível “igualdade” obrigando as pessoas a “partilharem” a sua riqueza – socialismo. Ora, não se pode criticar o capitalismo por não ser socialista!

    Por outro lado, o socialismo é tudo menos um sistema que é igual para todos – exige que as pessoas sejam discriminadas, o que não é muito democrático – e daí tantos regimes socialistas terem descambado para ditaduras.

    Citando Hayek:

    “From the fact that people are very different it follows that, if we treat them equally, the result must be inequality in their actual position, and that the only way to place them in an equal position would be to treat them differently.

    Equality before the law and material equality are therefore not only different but are in conflict with each other; and we can achieve either one or the other, but not both at the same time.”

  • O pormenor é que não vivemos numa sociedade primitiva, e os recursos são escassos. Quem quiser ir para o mato que vá. Mas em sociedade não é possível ter tudo o que queremos sem violar o direito dos outros conservarem o produto do seu trabalho – tomar aquilo que queremos pode ser considerado “roubo”. Podemos trabalhar o que queremos, e conservar o que nos derem em troca. Acabar com estas instituições é voltar para a idílica sociedade primitiva…

    Em primeiro lugar, a este ritmo qualquer dia já não há mato. Segundo, as sociedades primitvas de partilha “falharam” porque se baseavam na partilha de bens materiais, logo rivais e excluentes, como a àgua e a terra. Isso gerou inevitáveis regulações e hierarquias Agora, quando a partilha se refere a bens não-rivais como a informação, que pode ser infinitamente reproduzida e que requer o livre acesso para que possa ser processada e modificada, gera-se um ambiente de abundância onde todos podem contribuir livremente de acordo com as suas capacidades e obter o que necessitam.

    No mercado, apenas aqueles que têm poder de compra podem satisfazer as suas necessidades. Por isso, o capitalismo nunca terá em conta a participação de todos; existirão sempre os excluídos, aqueles cuja vida não vale nada.

  • Winter

    Pois que concordo com o Jose Flamand… troca de imprimire encadernar 🙂

    Continuem rapazes que estou a gostar de vos “ouvir”. E as minhas desculpas por não vos refutar, mas a minha cabecinha azul num dá para acompanhar tão ilustre verve. 😉

  • Miguel, de novo sem sarcasmos, as novas tecnologias que tanto aprecias, e a quem fazes tributo diariamente no teu excelente blogue, são por natureza neoliberais; e os seus maiores adversários são o estatismo hiper-regulador ao serviço das grandes corporações – mas isso não é, de todo, capitalismo liberal…

    A Internet foi desenvolvida por uma agência de defesa do Estado; a Web surgiu a partir de um laboratório de investigação europeu público; o Linux foi inicialmente financiado pelo Estado finlandês; em compensação, hoje em dia nos EUA as câmaras municipais querem abrir redes sem fio para que a população das zonas não abrangidas pelos serviços das empresas privadas possa aceder à Internet e mesmo assim as entidades reguladores não o permitem…


    O facto é que nenhum problema da Humanidade será integralmente resolvido: há sempre um equilíbrio para além do qual os recursos utilizados poderiam ser mais eficientemente utilizados noutros lados. Chama-se a isto “cálculo económico”. Como o capitalismo não tende para nenhum ideal de laboratório, há sempre descontentes com o capitalismo.
    (…)
    O ser humano é um animal competitivo, todos queremos estar melhor, mas nem todos temos as mesmas capacidades ou possibilidades. E é por isso que há desigualdades. Só é possível “igualdade” obrigando as pessoas a “partilharem” a sua riqueza – socialismo. Ora, não se pode criticar o capitalismo por não ser socialista!

    O problema é que o capitalismo arroga-se à perfeição, pois é como um vírus que invade o “Estado” e tudo o que apanhe pela frente. Ele não permite contestação. Ele não tolera a diferença. Daí o surgimento de monopólios.

    Porque “dado que os mercados abertos tendem a diminuir o lucro e os salários, eles dão sempre origem a anti-mercados, onde os oligopólios e os monopólios utilizam a sua posição privilegiada de modo a que o estado manipule o mercado em seu benefício” (Michel Bauwens).

    Como resultado, os mais fracos e os desprotegidos, porque não produzem, não têm direito sequer à segurança social e à saúde. O capitalismo apenas vê mercadorias onde há pessoas e objectos. A questão que que se coloca é o seguinte: será que um modelo económico que cria mais problemas do que resolve, que discrimina a grande maioria da humanidade e que é alvo de contestação por boa parte dessa maioria é o mais indicado? A resposta lógica é não e deve-se procurar novas alternativas que corrigem as falhas do capitalismo sem termos receio do papão do comunismo e fascismo. Porque o capitalismo é na sua forma actual apenas mais uma espécie de ditadura, a do mercado, porque não permite a coexistência de outros sistemas económicos.

  • Jose Flamand

    (acho que é melhor imprimir frente e verso senão lá se vai a semanada dos putos na resma)

  • (sepicheless…)

  • as sociedades primitvas de partilha “falharam” porque se baseavam na partilha de bens materiais, logo rivais e excluentes, como a àgua e a terra. Isso gerou inevitáveis regulações e hierarquias

    De novo, bens escassos. A partilha como sistema económico gera a chamada “tragédia dos comuns”. “Tragédia”, aqui, não quer dizer que seja “má”, apenas quer dizer que é inevitável. Consiste este fenómeno no processo pelo qual um dado bem comum é sobre-explorado porque ninguém tem vantagens em poupá-lo (ou outra pessoa vai lá consumi-lo). É o caso de um campo de pasto. Nenhum pastor se lembrará de deixar o campo recuperar, porque outros pastores poderão ir lá pastar o seu gado, e o primeiro fica a vê-los. Logo, há tendência para o campo se esgotar.

    Este sistema leva a que mais cedo ou mais tarde, haja quem se proclame “chefe dos pastores” (líder tribal, rei, secretário-geral, etc), e que decrete quem pode pastar e durante quanto tempo – socialismo. Aquela sociedade perde liberdade política e económica. Algumas pessoas ficam privadas de pastarem (se forem amigas do poder, ajuda), outras tornam-se monopolistas da actividade, e passa o tempo e ninguém se lembra que os campos poderiam ser usados para construir casas, oficinas, etc – porque há interesses instituidos. Ou lembram-se, e os antigos “direitos” vão à vida. Inevitável.

    Foi por isso que a Revolução Industrial começou com os enclosures – quando a propriedade pública foi retalhada em propriedade privada, e a propriedade privada passou a ser fechada. Não digo que não tenha havido brutais injustiças. Mas o facto é que esse novo sistema económico permitiu uma prosperidade sem precedentes. Hoje quase ninguém trabalha no campo….

    Agora, quando a partilha se refere a bens não-rivais como a informação, que pode ser infinitamente reproduzida e que requer o livre acesso para que possa ser processada e modificada, gera-se um ambiente de abundância onde todos podem contribuir livremente de acordo com as suas capacidades e obter o que necessitam.

    É fabuloso. Por muito que a palavra (ou a conjugação de palavras) possa chocar, é anarco-capitalismo em acção. É capitalismo porque é um sistema baseado na livre e voluntária colaboração das pessoas. E anárquico porque não tem “governantes” (é essa a raiz etimológica da palavra).

    E ninguém morre, ninguém é excluído, todos podem participar- e há ordem, uma ordem espontânea, a mesma ordem que verificamos no mercado, sem ninguém dizer quantas fábricas há, quantas lojas há, quem tem o quê, e quem pode negociar com quem, etc.

    O erro é dissociar essa maravilha com o facto desses sistemas não surgirem do nada. Os servidores custam dinheiro, as pessoas que os mantêm também, há conteúdos que as pessoas têm todo o direito de proteger– se conseguirem. Pessoalmente, eu acho que não existe o direito de enforcement legal da esmagadora maioria dos “direitos de propriedade intelectual”, porque isso já é controlo estatista de um ambiente que nenhuma burocracia poderá administrar…

    No mercado, apenas aqueles que têm poder de compra podem satisfazer as suas necessidades. Por isso, o capitalismo nunca terá em conta a participação de todos; existirão sempre os excluídos, aqueles cuja vida não vale nada.

    Todos nós temos necessidades que não podemos satisfazer, e é utópico que consigamos satisfazê-las todas. É utópico pensar que políticos ou burocratas algum dia saberão melhor do que nós o que nós necessitamos, e nos providenciem isso.

    Essa caracterização do capitalismo tem sido repetidamente falha. Não faz parte do capitalismo excluir ninguém, antes pelo contrário, faz parte incluir. Mas possivelmente não de uma forma que utópicos gostariam perfeita.

    Numa sociedade livre, toda a gente tem utilidade. Há lugar para super-estrelas, por causa de capacidades extraordinárias, ou sorte, ou herança, whatever, e para uma massa de gente medíocre, por causa de capacidades que toda a gente pode ter, incluindo super-estrelas. É da natureza humana, e tentar mudá-la por decreto costuma ter efeitos desastrosos.

    Caramba, até eu gostaria de ganhar como o Cristiano Ronaldo, mas infelizmente não posso oferecer aos milhões de adeptos de futebol as mesmas demonstrações de perícia. E caramba, milhares de pessoas gostariam de fazer o que eu faço, mas milhares de pessoas não têm capacidades para fazer projectos de engenharia, mesmo com formação para tal – nem o Cristiano Ronaldo. Eu gostava de estar ao nível do meu chefe, e tenho capacidades para tal, mas tenho de trabalhar no duro. E estão mais perto do meu nível os estagiários que coordeno, mas terão de trabalhar no duro. Não há excluídos…

    Faz parte do capitalismo – repito, do sistema económico que resulta da liberdade económica das pessoas – que pessoas de semelhantes capacidades e valor para a sociedade sejam semelhantemente remuneradas – acontece que nem todos somos extraordinários, muito bons, bons, medíocres, ou maus…

    Mas repito, não há excluídos que estejam dispostos em fazerem-se úteis, material ou espiritualmente. O mais pobre diabo pode ser empregue a fazer um trabalho que “mais ninguém quer”. Para que um dia, com esforço, possa melhorar a sua condição e a condição da sua familia e descendência. É essa a ética do capitalismo: a vida é lixada, se queremos que seja melhor, façamos por isso.

    Quando não ha intervencionismo “humanista”, há um espectro contínuo e natural de actividades e ocupações. Quando há, começa a haver excluídos – por exemplo os que não podem trabalhar abaixo de uma determinada remuneração, ou os super-profissionais que nunca chegam a existir porque há tectos salariais.

  • A Internet foi desenvolvida por uma agência de defesa do Estado; a Web surgiu a partir de um laboratório de investigação europeu público; o Linux foi inicialmente financiado pelo Estado finlandês;

    As inovações são feitas por pessoas, e há muito boa gente empregue pelo Estado. Esse argumento não refuta o facto da esmagadora maioria das inovações partir do sector privado, incluindo nas novas tecnologias – para dizer a verdade, desde essas “sementes” que não se vê nada de novo, estatal, no sector – a não ser mais e mais entraves à inovação.

    A questão é: onde estaria a net, a web, o linux, se continuassem a ser sistemas geridos por políticos e burocratas? 🙂

    Também daqui a cem anos viajar ao espaço vai ser banal, mas sobretudo vai ser um sector privado, como é hoje, na sua maioria, o transporte aéreo. (e onde estaria o transporte aéreo se fosse estatal?) A malta vai lembrar-se da NASA, pois que façam. Só espero que não percam de vista que isso não é qualquer justificação para a manutenção de sistemas de economia socialista para lá de uma fase em que o mercado consegue tomar conta da coisa.

    em compensação, hoje em dia nos EUA as câmaras municipais querem abrir redes sem fio para que a população das zonas não abrangidas pelos serviços das empresas privadas possa aceder à Internet e mesmo assim as entidades reguladores não o permitem…

    É caso para dizer que uma mão não sabe o que a outra faz. 🙂

    O problema é que o capitalismo arroga-se à perfeição, pois é como um vírus que invade o “Estado” e tudo o que apanhe pela frente. Ele não permite contestação. Ele não tolera a diferença. Daí o surgimento de monopólios.

    O capitalismo é o sistema de transacções económicas livres e voluntárias. A liberdade é contagiosa. E não tolera despotismos. E depois?

    Quanto à formação de monopólios, repito, não há casos históricos, que não tenham tido ajuda do Estado, e que não existiriam a não ser pelo auxílio do Estado. Esse é um mito sem fundamento económico. Mas com certeza com muita implantação ideológica. A ignorância também é contagiosa.

    onde os oligopólios e os monopólios utilizam a sua posição privilegiada de modo a que o estado manipule o mercado em seu benefício” (Michel Bauwens).

    (bold meu) I rest my case.

    Como resultado, os mais fracos e os desprotegidos, porque não produzem, não têm direito sequer à segurança social e à saúde.

    Não existe um “direito natural” à segurança social e à saúde. É uma construção política. Que tem os seus custos. Como não há “almoços grátis”, o dinheiro para pagar esses “direitos” têm de vir de algum lado. E isso tem custos. Onde estas teorias foram aplicadas em força, a miséria instalou-se, houve regressão económica – as pessoas ficam iguais, mas na pobreza. Outros sistemas, mais “equilibrados”, têm de parasitar a criação de riqueza – que acontece a todos os níveis económicos. Tendem para a estagnação económica.

    Não me oponho a que haja uma redistribuição moderada. Digam-me quanto tenho de pagar e especifiquem quem recebe. Que seja. O problema é que para corrigir hipotéticas “falhas de mercado”, incorre-se em necessárias “falhas de governo”. Ninguém sabe melhor do que cada pessoa o que é bom para si. Mas mesmo assim o Estado entende administrar e gerir “sistemas sociais” (Saúde, Educação, Segurança Social) como gere empresas públicas – ruinosamente. É preciso pôr um fim a isso. Se querem ajudar pessoas, tirem a uns e dêem a outros. Dinheiro. Cheques-ensino, -saúde, -aforro, o que seja. Mas dêem liberdade de escolha às pessoas.

    O capitalismo apenas vê mercadorias onde há pessoas e objectos.

    O capitalismo não mete etiquetas nas pessoas. Para isso era preciso uma autoridade central. Que só pode existir em sistemas anticapitalistas. Mais. Qualquer sistema anticapitalista é instável se não existir uma autoridade central. Que é obrigada a meter etiquetas nas pessoas.

    A questão que que se coloca é o seguinte: será que um modelo económico que cria mais problemas do que resolve,

    Melhor saúde, melhor educação, melhor alimentação, melhor habitação, mais qualidade de vida, mais entretenimento, etc etc?

    que discrimina a grande maioria da humanidade

    Os chineses e indianos estão felizes da vida por estarem a ser discriminados. A China apresentou o ano passado 10,4% de crescimento. Dez vezes mais que nós. Quem dera a outros povos pobres serem discriminados pelo capitalismo e mercados livres. Quem me dera ser discriminado e que viessem cá explorar os meus salários baixos. Tipo grandes e maldosas multinacionais. E que me levassem tipo escravo para os EUA ou Bangalore para ser oprimido pelo neoliberalismo selvagem >)

    e que é alvo de contestação por boa parte dessa maioria

    É curisoso que eu só vejo gente branca do mundo rico a protestar. Os pobres que estão empregues não se queixam mundo. E depois há os que entendem que merecem que o Estado roube para eles. Mas essa é outra questão ética.

    deve-se procurar novas alternativas que corrigem as falhas do capitalismo sem termos receio do papão do comunismo e fascismo.

    Formas alternativas às livres e voluntárias trocas económicas implica criminalizar a liberdade económica. Been there, done that.

    Porque o capitalismo é na sua forma actual apenas mais uma espécie de ditadura, a do mercado, porque não permite a coexistência de outros sistemas económicos.

    O mercado somos todos nós, que podemos obrigar “o grande capital” a servir-nos – ou passamos para a concorrência. De resto, outros sistemas económicos são possíveis. Implementem-nos, só não obriguem ninguém a contribuir para eles. Digo mais: só são possíveis porque tudo o que precisarem podem adquirir na economia de mercado que tanto rejeitam.

    Peace and love e abre-me aí o iTunes porque quero descarregar aquela música contra a exploração capitalista.