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Como visitar Lisboa em 1755

Embora continuem a existir montes de projectos em Second Life e OpenSimulator, à medida que (infelizmente) muitas comunidades, forçadas a cortar custos, acabam por se reunir menos (como tem sido noticiado pelo blog Portucalis) — e perde-se o acesso às «novidades» por esse(s) mundo(s) fora.

Um projecto académico bastante antigo, que começou em 2005 (!) no Second Life, tinha um objectivo bastante «ousado». Na altura comemoravam-se os 250 anos do Terramoto de Lisboa, que, a 1 de Novembro de 1755, pelas 9 da manhã, com a maioria da população a rezar a missa de Todos-os-Santos, foi completamente devastada por um terramoto do qual não há história de ter havido coisa igual. O pouco que se aguentou de pé foi depois varrido por um tsunami — que também matou a população desesperada que tinha fugido para o Terreiro do Paço, a tentar fugir dos edifícios em ruína. Mas mesmo aqueles que pensavam ter escapado para norte depararam com um incêndio de vastas proporções que destruiu tudo o resto que ainda tinha escapado ao terramoto e ao tsunami.

Foi uma catástrofe sem precedentes. A Lisboa barroca, uma das capitais comerciais do século XVIII, deixou, pura e simplesmente, de existir. O que temos hoje em dia — a Baixa Pombalina — é uma reconstrução quase total a partir do nada, que pouco ou nada tem a ver com o que existia antes.

Então, este grupo de investigadores do CHAIA pensou o seguinte: e se reconstruíssemos virtualmente a cidade, tal como era na altura do terramoto, para que as pessoas a pudessem visitar no Second Life, imersos num ambiente em que poderiam interagir com outras pessoas, assistir a óperas, participar em procissões e autos-da-fé ou mesmo em touradas no Terreiro do Paço — entretenimentos típicos da época! — e ainda assistir à cerimónia de casamento do Rei D. José? Tudo isto era possível de fazer em Second Life, e começou-se justamente por um edifício emblemático, a Real Ópera de Lisboa, que abriu ao público em Abril de 1755… para ser completamente arruinada poucos meses mais tarde — e da qual nem sequer existem pinturas ou gravuras: apenas uma planta e umas gravuras das ruínas.

Escusado será dizer que este tipo de projectos, em Portugal, nunca tem apoio financeiro. O grupo de investigadores, mesmo assim, não se deixou abater: continuou o seu trabalho e apresenta-o regularmente em conferências internacionais. Ironicamente, são extraordinariamente bem recebidos: é justamente o tipo de projectos de arqueologia virtual que os historiadores e arqueólogos sempre quiseram ver, mas que achavam que custava «milhões». Quando lhes é explicado que pouco mais se conseguiu do que pagar aos investigadores para irem a umas conferências, fazer um vídeo promocional, e um site web sobre o projecto, ninguém acredita 🙂

Como colocar isto no Second Life seria absurdamente caro, não houve outra solução do que usar OpenSimulator. Mas o OpenSimulator, embora seja barato, não é realmente «gratuito». Há que pagar por servidores e largura de banda para as pessoas o poderem visitar. Quanto mais barata a solução, menos pessoas o podem ver, e mais lento será — não seria de esperar outra coisa. Por isso, durante muitos e muitos anos, este projecto esteve essencialmente «no segredo dos deuses», apresentando-se apenas umas imagens novas, mostrando a evolução do projecto. Mas ninguém o podia visitar.

Bem, isso tudo acabou. Surgiu um novo operador, chamado Kitely, que tem uma solução engraçada para este crónico problema dos custos de alojamento de conteúdo 3D. Registar-se no Kitely é gratuito, leva poucos segundos, e imediatamente se tem acesso a uma região inteira — 256x256m — que se pode usar à vontade. A única restrição é que só se tem 120 minutos por mês para usar o Kitely. O que acontece é que o Kitely não mantém as regiões «online» o tempo todo, ao contrário do que fazem todos os restantes operadores. Em vez disso, quando alguém visita uma região, eles mandam-na para os servidores topo de gama da cloud da Amazon — têm 7.5 GB de RAM e 1 Gigabit de largura de banda! Isto permite um acesso de sonho — há quem ache que é igual ao do próprio Second Life (eu acho que é bem mais rápido, mas falo só por mim!). Enquanto houver visitantes na região, estes são servidos via Amazon. Logo que se desligue a última pessoa, faz-se um backup que é arquivado pela Kitely até alguém voltar a visitar a região. Isto leva muito pouco tempo: cerca de um minuto apenas!

120 minutos por mês não parece muito. Mas por 5 dólares/mês já se podem ter 60 minutos por dia — e o Kitely oferece então duas regiões 🙂 Mas há mais modelos de pagamento — parece um pouco como os pacotes de minutos dos operadores de telemóveis. E os «donos» de uma região podem igualmente decidir se pagam para os visitantes virem à sua região — ou, pelo contrário, se lhes «cobram» pelo acesso!

Ora isto significam montes de possibilidades. Por exemplo, alguém que abra uma loja no Kitely, pode começar com uma região gratuita. Isto dá para que as pessoas possam visitar a loja, «gastando» minutos — mas a loja estará sempre disponível para todas as pessoas, que «consomem» minutos seus, e não do dono da mesma. À medida que a loja vai fazendo dinheiro, o dono da mesma pode optar, em vez disso, por «oferecer» minutos de acesso aos seus clientes — o que permite que estes a visitem para além dos seus 120 minutos mensais, e, eventualmente, fazer mais compras. Com isso a loja pode crescer mais e mais, pagando o acesso a partir de uma parte das vendas. O mesmo princípio se aplica a quem queira fazer eventos. Comunidades podem juntar minutos para manterem as suas regiões activas para visitantes externos. E, evidentemente, há modelos de pagamento em que a região fica activa, de borla para todos, 24h/dia — embora aí já custe uns 40 dólares por mês. Mesmo assim é estupidamente mais barato do que é cobrado pela Linden Lab para o Second Life!

Claro que o Kitely não é o Second Life: é muito mais pequeno, tem muito menos gente (mesmo muito menos!) e evidentemente muito menos conteúdo à venda. Mas para projectos académicos como este da recriação virtual de Lisboa em 1755 isto pouco importa. O que interessa é que pelo preço de umas bicas é possível colocar praticamente toda a cidade de Lisboa em 1755 — pelo menos as áreas urbanas mais densas, as que foram destruídas no terramoto — disponíveis para o grande público. A Kitely diz que se conseguem até meter 100 avatars em simultâneo sem grande perda de performance (eu não testei!). Mas a vantagem deste modelo é que é fácil fazer mais cópias. Se um dia aparecerem 1000 pessoas em simultâneo, bem, então nesse caso o que se faz é dez cópias do mesmo conteúdo, e diz-se às pessoas para escolherem uma cópia que tenha menos gente no momento 🙂 Isto leva apenas uns 2 ou 3 minutos a fazer! E, claro, podemos fazer backup de tudo se um dia nos chatearmos com o Kitely e quisermos ir para outro lado.

É assim que este projecto, que há anos que ninguém vê, passou a estar disponível a partir do link: http://bit.ly/lisbon1755 Se nunca se registaram no Kitely antes, existe um procedimento, passo por passo, para instalar um viewer compatível com o Kitely e um plugin para configurar tudo automaticamente. Quem já tenha o seu viewer favorito pode configurá-lo manualmente. E para quem fique um pouco «perdido» com as instruções em inglês, há também instruções em português que descrevem todo o processo.

Boas visitas virtuais 🙂

OpenSim(ulator)

É tanta coisa que nem sei por onde começar…bom, pelo princípio, mas isto não é um texto técnico nem nada disso, quem quiser pesquisa no google essa parte.

O Opensimulator é um projecto que nasceu da abertura do código do SL (se estiver errada, façam favor de me emendar) e que engloba diversas grids, incluindo algumas que as pessoas correm nos seus próprios servidores e outras públicas, onde se pode comprar parcelas e usar (para quem não faz a mais pálida ideia de como correr um opensim no seu computador). É ler essa página para se ter uma ideia do que já existe e o que ali se passa.

Bom, claro que tínhamos que ir cuscar (ainda mais com este cansaço ésseélico de desmotivação, seca com os crashes, irritação com a história dos trademarks e demais quejandos como a desvalorização dos activos etc e tal) e, embora existam várias grids, um bocado por exclusão de partes (umas porque tinham poucas pessoas, outras porque são de comunidades alemã, francesa, japonesa, etc e outras ainda porque, no meu caso, não gostei da página nem das fotografias), escolhemos a OpenLife Grid. Quem está à frente daquilo é o Sakai Openlife, australiano e a coisa funciona dentro do possível, mais ou menos.

Por partes e a parte mais “como é que se faz?” muito simples. Registo no site, o nome do avatar à escolha, clicamos em avatar toolbox para escolher a região onde se quer entrar como “home” (de outra forma caímos na Welcome Island) e pode-se usar o viewer deles, RealXtend (é o que eu uso) ou o viewer do SL com algumas alterações (mas creio que este último ainda não dá, não sei). Quem tem os viewers antigos, incluindo o WL, é experimentar (eu burra, apaguei-os) porque no Flickr há pics com esse viewer.

E depois, login e siga (eu já devo ter escrito isto há ano e meio, sobre os nossos amigos que aqui não referimos pelo nome).

O que é que acontece? Aterramos na Welcome Island vestidos de Ruth. Todos. Tudo igualzinho, de calças vermelhas e camisola cinzenta, com um avatar de gaja muito feiosa que já conhecemos sobejamente. Alterar isso é um tudo nada diferente do que estamos habituados porque, no Edit Appearance, essa shape, skin e roupa não são modificáveis. No inventário, cria-se um novo item, veste-se e esse pode ser alterado.

E depois? E depois é morrer de tédio, claro, para quem já achava o SL chato. Não há lá nada. Ou melhor, há uma carrada de sims (que volta e meia estão offline), todos a serem construídos do zero. Os prims podem ser usados da mesma forma para construção (e é possivel usar sculpties, que – nada como a necessidade – até eu já ando a dar no Rokuro, que não me sinto preparada para o Maya…), as texturas são uploadas a custo zero (ou melhor, começamos com 10.000 unidades monetárias e cada upload custa 5 u.m.; quando acabarem não sei como é, faz-se um alt, provavelmente) e os scripts, segundo eles, funcionam a 30%. Mas…não há lá nada. Os items de library são meia dúzia de texturas e de scripts que, se não me engano, foram adiconadas muito recentemente. Ou seja, é preciso fazer tudo a partir do nada (e a uploadar texturas atrás de texturas).

As coisas que não funcionam:

Prims atachados aos avies, népias. Nada de cabelos, portanto, são os cabelos newbies e é um pau. Nem um boné, um cinto, uma luzinha na cara, enfim, uma tristeza, essa parte de barbizice. E como não há (que eu tenha visto) caixas de freebies espalhadas (nem sei se já há script para isso), é siga para o photoshop para fazer roupa, cravar tga’s aos amigos ou andar vestido de qualquer coisa que sirva. Vá lá que as skins da Eloh servem e ela não se importa de certeza, é defensora do opensource.

Também não funciona muito bem o teleporte. Avisa que as regiões mais remotas não estão acessíveis e crasha-se no teleporte. O melhor é ir voando (e crashando também), ou alterar o ponto de entrada no avatar toolbox no site. Na Welcome Island não se pode construir nada, mas há uma sandbox mais abaixo e alguns sims têm as permissões abertas.

Então e qual é a piada daquilo? Pois não sei, mas estou viciada. É o espaço, acho eu, todo vazio. São as poucas pessoas que se encontram, tudo cromos com alguma piada (até já lá encontrei um Linden, ah poizé…), mas cada um na sua, não chateiam. São sims atrás de sims todos desertos, só terra e árvores (Linden trees, feias como tudo, mas é o que há). Coisas giras como, pela primeira vez na vida, ouvir streams de música clássica e em mais que um sim. Construções experimentais, coisas esquisitas à brava ali pelo meio. E uma espécie de sentimento colectivo de começar de novo, mal e porcamente talvez, sem grande beleza provavelmente, com tudo ainda muito incipiente, mas que obriga ao esforço de puxar pela imaginação, ler tutorials, aprender e fazer alguma coisa (eu nos sculpties, quem diria…). No fundo, deve ter sido como se sentiram os beta testers do SL antes de ter virado mainstream, institucional e corporativo.

Não digo que o SL é pior, claro que não é. Depois logo hei-de analisar a coisa com mais detalhe, comparativamente.É evidente que o SL ligado à opengrid (daqui a um, dois anos), será, talvez, uma coisa muito gira. Quando se puder guardar o inventário no disco e andar com ele de um lado para o outro, por exemplo (nem sei se alguma vez será possível ou se sequer é equacionada essa hipótese, mas não vejo outra forma). Mas, por agora, isto tem muita piada. Para builders e scripters que não querem ganhar dinheiro, claro, é um paraíso. Para quem só quer estar ali na conversa à volta da fogueira, idem.

E, evidentemente, é muito mais barato…