Overdoing on the hat...
Chegamos ao 10º ano de existência oficial do Second Life®, que será celebrado formalmente em Junho! Dez anos é muito tempo: alguns diriam que é «tempo demais», no sentido em que, aos poucos, isto parece estar a acabar…

Mas estará mesmo? É verdade que ando entretida com outras coisas, mas sempre que me ligo ao SL, parece que há uma nova versão para descarregar. Hoje em dia, perco-me com as descrições complexíssimas de como se compra roupa e acessórios — as roupas meshed têm tamanhos, como nas boutiques reais; podem-se comprar maminhas em mesh que são chamadas de «tangos» (ainda não percebi porquê!) e que têm «apliques» de pele, que se obtêm nos criadores; um par de botas, que há uns anos bastava comprar e fazer attach, hoje em dia requer um HUD para acertarmos a cor dos dedos dos pés com a das pernas, e ainda por cima praticamente podemos modificar o aspecto dos sapatos de forma interactiva, tipo Shoes of Prey virtual. O cabelo, que há dez anos era apenas uma textura, hoje são pelo menos duas camadas — uma meshed para dar «volume e forma», uma de flexiprims para não parecer que gastámos dezoito latas de laca e o cabelo se mexer um pouco — e podemos configurar cada um dos prims do cabelo individualmente. Bolas! Isto é complicado, e cada mês que passa, vai ficando mais complicado.

Podem-se comprar «peças soltas» de avatar: cabeças, mãos, pés. Agarram-se ao nosso esqueleto, e têm HUDs para as animar — funcionam à parte do sistema da Linden Lab. Depois aparecem designers de moda que criam roupa e acessórios para a cabeça X, para as mãos Y, ou unhas pintadas para os pés Z. Quando vamos às compras temos de levar um manual de instruções!!

Agora a Linden Lab lançou materiais. Isto são propriedades dos prims que faz com que possam ser ainda mais realistas, com texturas reais, em vez de parecer tudo pintado em cima de plástico. Funcionará bem em qualquer computador que consiga ver sombras (o que exclui tudo o que tiver mais de seis ou sete anos de idade… mas é um bom compromisso) e acrescentará um nível de realismo nunca antes visto — e, ainda por cima, poupará preciosos prims (ou polígonos de meshes), pois com o auxílio desta tecnologia os criadores de objectos podem poupá-los e obter o mesmo efeito — por exemplo, para dobras no tecido, ou ranhuras numa superfície de pedra.

E lá vão lançando outras melhorias. Consta que, neste momento, navegar de barco entre regiões, já quase que não tem «sobressaltos», pois a Linden Lab melhorou as transições. Mas fez mais que isso: temos um inventório que funciona de forma diferente, muito mais rápido; assim como as conversas em grupos muito grandes; e está em desenvolvimento uma nova forma de apresentar os avatares (avatar baking) que acabará de vez com os problemas de texturas que não carregam ou que ficam «borradas»… e, em breve, também será resolvido aquele problema irritante em que os objectos lá no fundo da região aparecem logo, mas o gigantesco painel mesmo à nossa frente teima em não aparecer.

Mas, por outro lado, toda a gente se queixa que o Second Life «está a morrer», que as pessoas já não querem saber de mundos virtuais, que a Linden Lab (mais uma vez) perdeu o rumo, e que hoje em dia a malta está tanto tempo a divertir-se no Facebook que não tem tempo para coisas 3D. «Second Life? Mas isso ainda existe?» é o que me perguntam regularmente. Uma vez por ano, lá tenho um amigo num jantar de Natal que me pergunta: «mas ainda fazes conteúdos para aquele jogo?» (cujo nome já nem se lembra, nem se lembra do que é um «mundo virtual»)

E também costumo responder um pouco por todo o lado, quando me perguntam se ainda vale a pena investir no Second Life, com a maior das sinceridades: Não. Não vale a pena — excepto se se for um profissional da criação de conteúdos. Estes tomaram conta do mercado e produzem conteúdos de altíssima qualidade a um preço ridiculamente baixo, e a competição é feroz. Já se acabaram os bons velhos tempos de 2006, em que qualquer caramelo entrava no SL, aprendia a juntar 2 prims, aplicava-lhe uma foto roubada no Flickr, e vendia um «quadro para pendurar na casa virtual» por L$10 e ganhava balúrdios ao fim do mês. Mesmo alguém que tenha um pouco mais de talento e que goste de desenhar roupas, por exemplo, já não lhe basta uns templates de Photoshop e algum «olho». Precisa, hoje em dia, de perceber de Maya ou 3DS ou Blender, de estar perfeitamente familiarizado com rigged meshes, e precisa de fazer centenas de testes para ver se a roupa «agarra bem» ao corpo em várias poses, que terá de testar, uma a uma, e fazer minúsculas correcções com precisão. Isto leva anos de prática a desenvolver as qualificações necessárias, e semanas ou meses para aprender como se replica no Second Life (onde tudo é sempre «um pouco diferente»).

Ora é evidente que alguém que «acabe de chegar» ao SL não fará a mínima ideia de como aprender isto tudo.

E, como parece óbvio, desistirá rapidamente, achando que é absolutamente impossível «ganhar dinheiro» com o SL, e, logo, o SL terá «morrido». Apesar de literalmente milhares de criadores profissionais de conteúdo estarem a fazer dezenas de milhares de dólares por mês. Mas… não são milhões. E como não são milhões, «o SL morreu».

Mas, por incrível que pareça, parece que as coisas não são bem assim.

Hoje espreitei por mero acaso o forum de discussão em português da Linden Lab. Claro que não tem tantas mensagens como isso (e a maioria, claro, são de utilizadores brasileiros), mas é giro de ver que o tipo de mensagens é o mesmo de 2006/7 — gente a pedir emprego, a perguntar como é que se monta uma loja ou uma discoteca, a vender terrenos, coisas assim. Sim, sei que não são muitas mensagens, mas também não são «zero». Estranhamente, ainda em 2013, há gente a fazer precisamente as mesmas coisas que em 2006 ou 2007. E se estas existem, quer dizer que há muitos e muitos níveis no Second Life (como os ogres no Shreck). É verdade que lá no topo existe uma elite de profissionais a ganhar pipas de massa com conteúdos que os comuns dos mortais nunca conseguirão desenvolver. Existem alguns mega-agentes imobiliários que vendem regiões às dezenas. Há giga-promotores de eventos que controlam discotecas, DJs, salas de espectáculo, e vendem os direitos para a televisão.

Mas pelos vistos, cá em baixo, entre os pequeninos e os amadores, o sonho não morreu. Ainda há gente satisfeita por se sentar em bolinhas por umas horas e ganhar uns tostões que chegam para comprar uma T-shirt feita em 10 minutos de Photoshop. Ainda há quem resmungue porque a sua parcela de 16×16 m2 está encostada a alguém que tem um sinal luminoso que enche a região de lag. Ainda há quem faça mini-eventos, anunciados sabe-se lá onde, em que aparecem uma dúzia de amigos que se divertem por uma hora, mesmo que a música seja uma treta e o streamer (gratuito) esteja sempre a encravar ou a colocar publicidade. Ainda há quem tire umas fotos e abra uma galeria de arte — onde vendem as fotos por L$10 a gente que ainda não percebeu quão fácil é de fazer o mesmo.

E se calhar são muitos!

É que em em 2004, quando me liguei pela primeira vez ao SL, era só isso que se fazia. O SL parecia gigantesco, com uma vastidão de coisas para fazer e para comprar, tal como hoje… mas só haviam umas 5.000 pessoas ligadas, nenhuma das quais era «profissional de criação de conteúdos». Estávamos todos a aprender, uns com mais talento que os outros. O conteúdo tinha pouca qualidade, os eventos eram mal organizados, mas todos nos divertíamos imenso. E alguns até ganhavam uns trocos para as T-shirts.

Aparentemente, nesse aspecto, nada mudou. Ainda há pequenas comunidades, talvez com as mesmas 5.000 pessoas, que fazem justamente o mesmo, aqui e ali. Como são tão pequenas, passam despercebidas. Claro que é possível, no meio do conteúdo horrorosamente amador, encontrar aqui e ali objectos «de topo de gama» que não existiam em 2004 — e aí vemos que de facto estamos já em 2013. Mas o aspecto geral da coisa é muito parecido ao que tínhamos há 6 ou 7 anos atrás: comunidades pequenas, com pouca gente, mas que se diverte à brava a fazer coisas simples por sua própria iniciativa.

O que mudou é que em 2004, «em terra de cegos, quem tem um olho era rei». Ou seja: alguém que tinha um bocadinho mais de jeito, ficava imediatamente conhecido em toda a grid, porque, como esta era minúscula, e toda a gente se conhecia, rapidamente se «passava a palavra». Tipo ter 5.000 amigos no Facebook — uma mensagem chega a todos. Hoje em dia, essas mini-comunidades têm pouca relevância para o exterior — que são 5.000 pessoas no meio de um milhão? — por isso nunca ouvimos falar delas. Não fazemos parte justamente desse grupo de 5.000, por isso não recebemos as suas mensagens, e concluímos que não existem. Não há jornalistas a falar deles. Até podem ter um blog ou um forum, mas não o conhecemos, não conhecemos ninguém que tenha um link, e mesmo que o conheçamos, está escrito em húngaro ou japonês, e não tem nada que nos interesse excepto fotografias com aspecto de terem sido tiradas em 2008 ou 2009 (como esta que ilustra este artigo!).

Por isso, por estranho que pareça, para um grande número de pessoas, o sonho não acabou. Até ficariam surpreendidos de ouvir que há gente que pensa que acabou, como nós. O que nos perguntam, arqueando as sobrancelhas, é: «o sonho acabou? Por onde é que vocês têm andado?»

É. É que se calhar temos andado pelos sítios errados. Eu tenho a certeza que é o meu caso! É que estou constantemente a encontrar situações do género:

  • Faço teleport para uma localização qualquer que tenho na minha lista de landmarks. E quando chego ao destino, vejo que é qualquer coisa de muito diferente. Lá penso, «pronto, mais um sítio que fechou…» Mas depois avisam-me que não, mudaram de sítio. E penso: «pronto, isto que era uma coisa enorme, agora é uma lojinha de 16×16 algures perdida num sítio qualquer». Mas quando salto para o novo sítio, lá me surpreendo ao ver que na realidade a coisa cresceu, e foi por isso que mudaram de sítio! Eu é que andava distraída…
  • Tenho uma lojeca manhosa em Ross há muitos e muitos anos. Nunca vendi lá nada. Mas é porque a qualidade dos meus produtos, francamente, é uma treta. E só lá vou de mês a mês pagar a renda, que é barata, e eu sou teimosa, e gosto do dono (que é o Prokofy Neva!). Mas o que é estranho é que está lá sempre gente — muitos novatos, mas não só. A maioria das lojas é uma treta, e é uma treta há 5 ou 6 anos. A região sempre teve pouca gente, mas sempre teve gente. A maioria das pessoas não compra nada, mas a verdade é que nunca comprou nada. A verdade é que as lojas lá estão, e as pessoas lá estão: em 2013 como em 2006
  • Tenho um  amigo meu que é artista digital. Tem um espaço (hesito em chamar-lhe «galeria») onde faz exposições e alguns eventos. Queixa-se constantemente de que os artistas «do mundo real» não consideram o SL como «sério», e que, como tal, a arte em mundos virtuais está morta. A região dele não é nada de especial. Não faz parte de nenhuma lista. Não conheço nenhum dos grupos em que ele está inscrito, excepto um, que é por isso que o conheço a ele 🙂 Mas a verdade é que sempre que vou aos eventos alojados numa parte da região dele (que nem sequer é ele que organiza), há sempre meia dúzia de pessoas nos eventos, para além de 3-4 visitantes que nunca ouviram falar do evento mas que andam por lá apenas a visitar a exposição. Sempre. É assim desde 2007 — não mudou nada. Não há menos pessoas, mas como também não há mais, o meu amigo anda frustrado há alguns anos (mas não desiste).
  • Faço parte de uma comunidade que existe desde 2004… e desde 2004 que as várias regiões que tem estão sempre vazia. O comércio «nunca pegou» por lá, nem sequer em 2006/7 quando toda a gente ganhava dinheiro a rodos. Os eventos nunca tiveram muita gente. A participação sempre foi baixa. O conteúdo em geral sempre teve pouca ou nenhuma renovação (ainda há partes dos edifícios originais, de Setembro de 2004!). No entanto, continuam a anunciar eventos regulares todas as semanas, e os forums oficiais continuam a ter participação. Pouca, claro, mas sempre foi pouca. Os eventos sempre foram de qualidade média, também com pouca participação — mas continuam a ser iguaizinhos a dantes. Quando dou lá um salto, é raro encontrar mais do que uma ou duas pessoas da comunidade — mas também era assim em 2004. Ou 2005. Ou 2007! Sempre foi assim!

O que concluo é que este Second Life continua a ser muito esquisito! Há anos e anos e anos que nos queixamos todos que isto não cresce, que as pessoas desistiram de tudo, e realmente, quando se lêem os blogs de topo e se assistem aos eventos da inteligentsia do SL, parece que assim é. Mas quando andamos a passear por aí vemos que as coisas estão mais ou menos na mesma. Ainda continua a entrar gente no SL com um sonho, lá encontra um cantinho, um nicho de mercado, e ganha uns tostões a divertir-se a fazer o que gosta, em conjunto com uma dúzia de amigos. Mas, ora bolas, isso é o que a gente fazia em 2004… ou mesmo em 2007. Não mudou nada, excepto que a inteligentsia já não fala disto. Não mudou nada, excepto que «um grupinho de 10 ou 20 pessoas» conseguia chegar a toda a população do SL em 2004, enquanto que hoje em dia temos centenas de milhares de «grupinhos de dez pessoas», que não chegam a lado nenhum excepto… a esse grupinho de dez pessoas. Essa é essencialmente a diferença.

Ok, bem sei que globalmente o SL está a encolher um bocadito todos os anos, e que algumas pessoas (tipo eu!!) se ligam menos do que antes. É verdade. Mas acho interessante analisar que muito do crescimento foi altamente especulativo, começou por ser exponencial em 2006/7, e que continuou a crescer por inércia ao longo de muitos anos, mesmo que não houvesse razão racional para isso. Agora, tal como a economia portuguesa, o SL «encolheu» para os valores reais do que se continua a fazer por cá e os especuladores foram-se embora, frustrados por não serem milionários.

Dizem-me por todo o lado que os mundos virtuais morreram, o Second Life é o último, e quando desaparecer («quando»??!), nada mais restará. Mas um pequeno anúncio de um projecto lançado em mundo virtual, num jornal de grande divulgação, trouxe quase mil pessoas, quando se esperavam apenas cem. E quase todas elas, com poucas excepções, nunca se tinham ligado antes a nenhum mundo virtual. Dá que pensar. Será que o problema está justamente em que ninguém fala de mundos virtuais — mas quando falam, toda a gente vem cá dar um saltinho?