Quando compramos as primeiras parcelas, em Red Apple Island, o Miguel escolheu o nome para a primeira, 100 Pressa e eu para a segunda, 100 Medo. A lagoa ficou depois o 100 Limite, o nome agora do nosso terreno novo.

Um dia liguei a coisa e tinha a conta carregada de lindens. Tinhamos vendido uma das parcelas. Fui ver qual era; a 100 Medo. Ainda não tinha nada e fomos cuscando, para saber como era o novo dono. São coisas engraçadas, estas, a preocupação com o terreno antigo, se vai ter uma construção horrível, se vai ser bonito. Uns dias depois, a casa japonesa da Aral Levitt pareceu-me bem e agora até está muito giro mesmo. Mas, durante esses dias, nunca calhou encontrar o dono.

É que me estava a causar alguma curiosidade que não mudasse o nome. Lá continuava, 100 Medo, o nome que lhe dei, a frase descritiva, tudo na mesma. Coisa estranha, será que o homem não sabia alterar? Não era português de certeza, não lhe faria sentido algum.

Finalmente, há dois dias, encontrei-o. Fui falar com ele, disse-lhe que aquela parcela tinha sido nossa, as outras ainda eram e lá lhe perguntei a razão de não mudar o nome. Porque tinha achado imensa graça, respondeu. “Without Fear”. E ainda mais com o número. Tinha uma amiga portuguesa que lhe tinha explicado. E se eu me importava que ficasse tal como estava.

Disse-lhe que não, claro que não me importava nada, antes pelo contrário. Ficou o nome e a frase, que poucas pessoas verdadeiramente entendem. E é estranho, num mundo tão volátil, onde tudo muda de repente, ficar ali aquilo, assim, já fora da nossa mão, ainda tão nosso.

label: daqui a nada ainda me ponho a ler a sina nas folhas do chá