No Second Life®, tudo é propriedade privada. Em rigor, tudo pertence aos Lindens™. Cada porção de sim é cedida aos residents mediante um contrato de transferência de direitos de propriedade. Salvaguardadas as prerrogativas dos Lindens™, a terra passa como que a ser propriedade privada dos arrendatários, que nela podem e mandam. Por simplificação, se considerarmos o Linden Lab® como Deus e as suas leis como divinas, os rendeiros são de facto proprietários daquelas terras.

O aviso que ilustra este post ilustra que os proprietários não perdem quaisquer direitos de propriedade quando abrem a propriedade ao público, para que outras pessoas (err… avatares) possam dela disfrutar, para lazer ou interesse económico. Desde que se comportem. As pessoas entram voluntariamente nos sims, são avisadas, se estiverem mal, mudam-se. Ninguém é obrigado a permanecer numa área de bondage, de políticas de extrema-direita, ou de música country contra a sua vontade. Mas também ninguém tem o direito de perturbar, contra a vontade do proprietário e da sua freguesia, o que por lá se passa.

Este sistema de propriedade privada permite que os proprietários possam competir por satisfazer o mercado que lhes interessa, e deixam espaço para que mercados por explorar sejam aproveitados por gente com iniciativa. Sítios grotescos podem ser tão grotescos quanto quiserem, pois estão a “servir” uma clientela muito reduzida. Sítios que precisem de clientela e tenham assuntos sensíveis tenderão a ser muito moderados. Por exemplo, as lojas de skins são muito gráficas – algumas nudezes são muito realistas. Mas primam regra geral pela discrição e até algum bom gosto.

Este sistema também legitima regras que de outra forma seriam positivamente fascistas. Alguns servidores não aguentam com muito tráfego. Então limita-se o número de acesso. Ou simplesmente porque os donos não querem ver muita gente. Em alguns sítios, há uma extensa e bem clara lista de proibições: é proibido fazer shouts, são proibidos os poofers, é obrigatório ter roupa vestida… Como o espaço é privado, as pessoas ou aceitam, ou que se vão embora. Se o espaço fosse público, impor tais regras seria atropelar direitos individuais fundamentais.

Estas regras são regras de cidadania e de respeito pelos direitos das pessoas – paradoxalmente, mesmo que algumas sejam discriminatórias: um sim de “cat-haters” poderia proibir furries, por exemplo, que a ninguém prejudicaria. Negócio que o fizesse perderia dinheiro, mas estaria no seu direito. Poderia haver sítios dedicados exclusivamente a pessoas discriminadas. As possibilidades são ilimitadas, criando imensa riqueza cultural.

No mundo real, estas lições são esquecidas por conveniência política. Os proprietários privados não podem, por lei, fazer o que quiserem. Um exemplo clássico é que o proprietário de um estabelecimento comercial não pode afixar na porta “aqui fuma-se” e preocupar-se em servir os clientes que por lá apareçam, voluntariamente e avisados. Na prática, é uma forma de expropriação legal. Se admitimos que esta prática de apropriação de direitos de propriedade é legítima, não temos como contestar que semelhantes proibições se estendam a propriedade privada com fins não lucrativos – e que um dia cheguem às nossas casas.